terça-feira, 27 de março de 2012

Parte I - Hanseníase: Prisioneiros do estigma.


Hospital Colônia Santo Ângelo – Mogi das Cruzes-SP.

Autores:
Glauco Ricciele P. L. C. Ribeiro
Historiador

Valéria Rocha Macedo 
Psicologa 


Em 29 de março de 1995 o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, assinou a Lei 9 010, que diz, em seu Artigo 1º: “O termo ‘lepra’ e seus derivados não poderão ser utilizados na linguagem empregada nos documentos oficiais da Administração centralizada e descentralizada da União e dos Estados-membros”. No Artigo 2º são listados os termos que podem ser usados. Em vez de lepra, hanseníase. O termo “leproso” dá lugar a “doente de hanseníase”.  “Lepra” é uma palavra estigmatizada. O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa diz que, no sentido figurativo, “leproso” é aquele cujo convívio é maléfico ou extremamente desagradável, uma pessoa perversa, ruim, que provoca repulsa, nojo.

Historicamente a humanidade sofre com a hanseníase, citações bíblicas registram o grave fato e suas consequências. Mas com a colonização do Brasil e seu fluxo alto no inicio do século XX a hanseníase se prolifera rapidamente nas grandes metrópoles. Na cidade de São Paulo as casas dos infectados eram marcadas e interditadas, já as pessoas infectadas deveriam utilizar um pequeno sino ao andar pelas ruas, alentando os demais cidadãos. Neste cenário conturbado o Governo de São Paulo cria Hospitais Colônias em cidades polos em todo o Estado.

Mogi das Cruzes foi uma das escolhidas por estar geograficamente entre a Capital e o Vale do Paraíba. O Hospital Colônia Santo Ângelo foi inaugurado em 1928, comportou 5000 pacientes na década de 1940. Toda sua estrutura era baseada no sistema Americano “Carvilles”. O hospital era uma mini cidade, composta por Casas, Teatro, Delegacia, Barbearia, Moeda própria, Igreja e Cemitério, etc. Viver neste contesto não era fácil, privações e infelicidades eram vivenciadas diariamente.


Fatores psicológicos do confinamento

A exclusão existe desde o tempo do Império e da República, portanto ela tem uma história em nossa sociedade. A exclusão do ponto de vista psicológico torna o ser humano um objeto de distinção, sendo constituído como uma categoria a parte. Essa questão importante norteou o dia a dia dos cidadãos internados no Hospital Colônia Santa Ângelo, e tornou o grupo de indivíduos, com um grupo de leprosos.

A exclusão vivida pelos portadores de hanseníase traz do ponto de vista social dois mediadores importantes: os estereótipos e os preconceitos, que se alimentam de um discurso social, qual era o discurso “leprosos precisam ficar isolados”. O que isso trouxe para esses indivíduos? Segregação social, rompimento de vínculos afetivos em especial com a família, que tem papel fundamental para o desenvolvimento psicológico do ser humano no sentido de auxiliar na construção de vínculos morais, afetivos e sociais, e a impossibilidade do sujeito colocar-se em um lugar de construtor de seu próprio direito, neste caso, um dos direitos, viver em sociedade.


Nas próximas postagens continuaremos escrevendo o cotidiano no Hospital Colônia Santo Ângelo.

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