sábado, 5 de março de 2011

Da Folia a Cinzas: O carnaval em Mogi das Cruzes

O carnaval não se resume apenas em desfiles como observamos atualmente em nossa região sudeste. Os primórdios do carnaval se remetem as folias carnavalescas de rua ou salão que eram praticadas desde o século XIX até metade do século XX. É importante frisar a influência de diversas culturas integrante em nosso carnaval, afrodescendentes contribuíram com uma maior gama, também houve participação de imigrantes italianos nessa composição a partir da década de 1920 em São Paulo. Em nossa Mogi das Cruzes historicamente as folias de salão são praticadas a partir do século XX. Isaac Grinberg faz inúmeras referências ligadas ao carnaval, uma destas “A Lenda do Carnaval” passada em meados da década de 1910, traz inúmeros significados:

“Na Mogi das Cruzes de antigamente os bailes de Carnaval realizavam-se no Mercado Municipal. As mulheres sentavam-se à volta do grande salão para assistir à folia e só os homens brincavam. E quase todos mascarados.
O carnaval terminava exatamente à meia-noite de terça-feira. É que se alguém ousasse ficar de máscara ou brincasse depois dessa hora, um minuto que fosse, virava lobisomem!
Nessas condições, o baile transcorria normalmente e lá até alta madrugada nos outros dias, mas na terça-feira, às onze e meia da noite, cessava a música, os homens tiravam as máscaras, encontravam as esposas que já os esperavam e seguiam rapidamente para as suas casas todos em silêncio...”


O curioso é que Mogi das Cruzes, mesmo situada na região metropolitana de São Paulo durante os anos de 1910 mantêm uma mentalidade provinciana, em que as tradições transpõem os desejos e as emoções. Outro aspecto intrigante “As mulheres sentavam-se à volta do grande salão para assistir à folia e só os homens brincavam”, as tradições outra vez se ressaltam, o papel da mulher como símbolo sedutor, não era importante para a mentalidade do período, mas as extravagâncias como as danças individuais e principalmente a ingestão de bebidas alcoólicas satisfaziam o gosto popular. Pois a partir do primeiro minuto da quarta-feira de cinzas todas as extravagâncias e “pecados” tornaria-se heresias perante a Igreja. Até os dias atuais a tradição em torno da quarta-feira de cinzas se mantêm viva em nossa Mogi. Na Catedral de Sant’Anna  a partir da quarta-feira de cinzas até o sábado de aleluia, portanto todo o período da “Quaresma” todas as imagens são cobertas com panos roxos, simbolizando que o foco neste período antecedente a páscoa, é que todos os fieis reflitam os sofrimentos passado por Cristo anterior a sua morte.






Mas o carnaval mogiano não se resume apenas aos fatos citados, outros aspectos são importantes como o surgimentos dos primeiros blocos: “Bloco do Sul”, “Independente”, “X”, “Estrela” e “Ki Ka Kalor”, estes blocos modificaram a brincadeira carnavalesca, saindo do salão do mercado municipal e indo para as ruas estreitas de nosso centro. A inovação principal foi à criação do campeonato de bonecos e carros alegóricos feitos de papel mache que sobreviveu até o inicio dos anos 40.




Entre os personagens carnavalescos um se destaca pela alegria e perseverança o Rei Momo João Benegas Ortiz que incorporou o personagem por mais de 40 anos. Ortiz como era conhecido não media esforços para a realização do carnaval em nossa cidade. Houve anos em que o mesmo angariou fundo para a realização do evento, pois a prefeitura não cobriria os gastos. Ortiz é lembrado por todos os mogianos como o eterno Rei Momo.


Já a partir dos anos 50 até 1980 os mogianos pulavam o carnaval em salões e clubes: Itapety, União, Vila Santista, Náutico e Clube de Campo essa fase do nosso carnaval é quem diga a melhor. Nos anos 50 jovens e adultos freqüentavam o local, a oportunidade de acontecer um “flerte” era mais fácil, pois fora desse momento sobraria apenas as paqueras nas praças e futuramente um namoro vigiado pelos país.


A última fase que sobrevive até hoje, é o carnaval em forma de desfile. Essa fase nasceu a partir da metade da década de 1970 com forte contribuição de imigrantes oriundos de Minas Gerais e Rio de Janeiro, grande parte trabalhadores da indústria. Nesse contexto foram fundadas as primeiras escolas de samba: Unidos da Vila Industrial, Unidos da Ponte, Unidos do São João, Estação Primeira de Braz Cubas e Mocidade do Tietê.

          
  Mas Mogi das Cruzes conserva aspectos peculiares em seu carnaval ao contrário do que vemos em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, um carnaval cada vez mais comercial pautado em regras e no cronometro. Uma folia para pouco que desfilam ou observam de camarote. O bom e velho carnaval o brasileiro atualmente desconhece, um evento sem preconceitos sociais, onde todos possam extravasar suas alegrias, trocar sua identidade e sonhar como uma criança ingênua a eterna folia carnavalesca... como era no passado!





Fontes:

GRINBERG, Isaac. Folclore se Mogi das Cruzes. Ed. Câmara Brasileira do Livro. São Paulo, 1983.   
  
Arquivo Municipal de Mogi das Cruzes.

Prefeitura de Mogi das Cruzes    

3 comentários:

  1. O texto é excelente, pois mostra o verdadeiro sentido do carnaval, já que hoje o que vemos é um desfile técnico, com um samba enredo que não é para dançar e nem ser lembrada, é apenas um texto perfeccionista adequado ao enredo escolhido pela agremiação.
    Tempo bom era quando apenas as escolas compunham um samba e ele era julgado, dando o título a escola de samba. Nem fantasias e nem alegorias grandiosas faziam parte do desfile, que antigamente era para descontrair. Hoje o desfile não permite erro, passista parece um funcionário de uma empresa que investe pesado para obter sucesso, fato esse de hoje que descaracteriza a essência do verdadeiro carnaval.

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  2. errata: "samba enredo que não é pra dançar e nem ser lembrado"

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