sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Revolução esquecida




No transcorrer dos 450 anos de nossa cidade, inúmeros episódios heróicos puderam ser contracenados por mogianos de sangue ou de coração. Um destes momentos marcantes de nossa história se passa em São Paulo no ano de 1932. O cenário político nacional passava por momentos conturbados o Governo Provisório de Getulio Vargas e suas medidas intervencionistas e centralizadoras, desagradava à velha oligarquia. As atitudes de Vargas levaram ao descontentamento da elite paulista. Sendo assim a crise econômica mundial que afetava o país desde 1929 foi também um dos grandes fatores que desencadeou a Revolução Constitucionalista de 1932. Esta Revolução eclodiu em 9 de julho e chegou ao fim de outubro com a rendição de São Paulo as tropas federais.
Em meio a esses episódios um mogiano de coração se destacou, Tavírio Villaça Pinto de 96 anos é atualmente o único Voluntário Constitucionalista vivo em nossa cidade e um dos poucos do Estado. Villaça nasceu em 1914 no Rio de Janeiro, filho de um almoxarife da antiga Cia. Central do Brasil, veio para São Paulo aos 17 anos em 1931. Segundo Villaça, “Com a transferência do Almoxarifado de viação para São Paulo meu pai se viu obrigado a se mudar para a cidade de São Paulo”. Após se fixar em São Paulo Villaça conclui o a Escola de Contabilidade como guarda livro, e conhece seu padrinho de batismo o Profº Joaquim Teixeira de Aquino onde manteve fortes laços.
O ano de 1932 foi marcado por agitações e crises sucessivas nos meios civis e militares, os antigos partidos da oposição, Partido Republicano Paulista (PRP) e o Partido Democrático (PD), formaram uma Frente Única, com o objetivo de enfrentar o poder central. Essa Frente Única lançou a campanha por eleições a uma assembléia constituinte. No dia 9 de julho de 1932 numa manhã de sábado eclodiu a Revolução Constitucionalista. Segundo Villaça, “Naquele sábado eu ia até a casa dos meus padrinhos para encontrar com meu primo Rolandro, minha mãe me deu o dinheiro para bonde e sai tranquilamente. Ao descer do bonde me deparei com uma grande movimentação no centro de São Paulo. Nisso seguindo meu caminho fui até a casa do Rolandro, mas não o encontrei, segundo minha madrinha ele tinha ido se alistar na revolução e embarcar no trem no mesmo dia, fui até o encontro dele. O encontrei no Largo São Francisco junto como meu padrinho, nisso me despedi de Rolandro. Passado alguns minutos meu padrinho vira para mim e pergunta “E você”, eu vou para minha casa, “Você vai mesmo”, confirmei que iria, mas fui que fui, mas não fui. Dei a volta no quarteirão e me alistei, mesmo sem o consenso de meus pais e sendo carioca, pois tinha 17 anos, meu primo com 16 como poderia deixar ele ir sozinho pra batalha”.
A indústria de São Paulo foi adaptada para fornecer material para guerra, como lança-chamas, máscaras contra gases, granadas de mão, capacetes de aço. As tropas do governo federal, comandadas pelo general Góis Monteiro, avançaram pelo Vale do Paraíba, para a divisa de São Paulo com Minas Gerais, pelo litoral de Parati e Ubatuba e para Itararé, desta forma impediam o avanço das tropas federais. Segundo Villaça, “No ato do alistamento o voluntário recebia o uniforme completo, capacete, arma, marmita e cantil”. “Ao voltar pra casa eu contei a minha mãe, o acontecido... o Rolandro embarcou e eu me alistei. Minha mãe ficou desespera, e pediu que voltasse para entregar tudo que peguei na hora do alistamento. Concordei com ela e fui devolver, mas não devolvi embarquei naquele dia mesmo para Queluz divisa de São Paulo com Rio de Janeiro. Ao chegar fui intitulado primeiro tenente da 1º e 2º Cia por ser o único voluntário a ter se apresentado fardado. E aos meus cuidados ficaram vinte soldados. Só que infelizmente Rolandro foi para Caçapava, só o encontrei no fim da revolução.
Em todas as frentes houve combates violentos. No entanto agosto e setembro ficaram comprovados a superioridade das forças do governo federal, que contava com mais armas munições e soldados. Segundo Villaça, “As dificuldades eram muitas, cheguei a ficar três dias sem comer, nessa ocasião eu e meus homens tivemos que matar uma vaca, um ato de extrema necessidade. Houve também em alguns momento o uso da matraca, pois seu barulho confundia-se muito com os das metralhadoras, o uso desse artifício era necessário nas horas que estávamos sem munições” .
Apesar de São Paulo estar em desvantagem a luta durou três meses, terminando em outubro quando os paulistas cercados pelas tropas, se renderam. No total, foram 87 dias de combates, (de 9 de julho a 4 de outubro de 1932 - sendo o último dois dias depois da rendição paulista), com um saldo oficial de 934 mortos, embora estimativas, não oficiais, reportem até 2.200 mortos, sendo que inúmeras cidades do interior do estado de São Paulo sofreram danos devido aos combates. Em meio a este saldo trágico de mortos, havia dois mogianos de sangue que doaram suas vidas heroicamente para o bem de São Paulo, Fernando Pinheiro Franco e Cabo Diogo Oliver. Mesmo derrotados os paulistas tiveram ganhos políticos. O governo provisório se comprometeu em levar avante o processo de reconstitucionalização do país. Outro ganho para São Paulo em agosto de 1933, passaram a ter um interventor paulista e civil, como desejava a elite. O interventor que assumiu o governo de São Paulo foi Armando Sales de Oliveira. A revolução de 1932 provocou uma reorganização na política nacional, foi um marco do processo de depuração das elites civis e militares.
O destino nos reservou a alegria de vermos Mogi representada em diferentes momentos da nossa história nacional. Embora tenha contribuído para tal, o Senhor Tavirio não se sente nosso herói e diz apenas “ter vivido a vida do jeito que ela deveria ser vivida”, ou seja ter cumprido com o seu papel de “cidadão mogiano”.

Autoria:
Glauco Ricciele Prado Lemes da Cruz Ribeiro
Graduado em História pela Universidade Braz Cubas

Regina Célia Rissoni Valentim
Graduada em História e Pedagogia, Pós graduada em Psicopedagogia e em Formação de Especialista em Educação.

Nenhum comentário:

Postar um comentário